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Febre Amarela pode afetar a visão? Publicamos o primeiro caso descrito na literatura mundial

Em 2019, tive a oportunidade de publicar um relato de caso no American Journal of Ophthalmology Case Reports — uma das revistas oftalmológicas de maior impacto internacional, publicada pela Elsevier. Fui o primeiro autor e autor correspondente do estudo.
O que tornava esse caso especial ia além da raridade clínica: era o primeiro relato documentado na literatura científica mundial de uma doença específica da mácula associada ao vírus da febre amarela.
O que aconteceu com o paciente?
Um homem de 59 anos, saudável, viajou para uma área endêmica do estado de São Paulo e contraiu febre amarela — confirmada por exames laboratoriais (RT-PCR e ELISA). Após se recuperar da infecção, cerca de 30 dias depois, procurou o pronto-socorro oftalmológico com perda súbita de visão no olho esquerdo.
Os exames de retina revelaram um comprometimento na mácula — a região central da retina, responsável pela visão de detalhes e leitura.
O que é a mácula e por que ela importa?
A mácula é a parte mais nobre da retina. É ela que permite enxergar com nitidez, reconhecer rostos e ler. Quando há qualquer inflamação ou alteração nessa região, a perda de visão pode ser intensa e rápida.
No caso desse paciente, identificamos um padrão inflamatório chamado maculopatia aguda idiopática unilateral — uma condição rara, geralmente associada a infecções virais. O que nunca havia sido descrito antes era a sua associação com o vírus da febre amarela.
Por que esse caso foi relevante?
Durante o surto de febre amarela que afetou o Brasil entre 2017 e 2019, vimos um aumento significativo no número de casos humanos. A doença era conhecida por suas complicações sistêmicas — hepáticas, renais, hemorrágicas — mas sua capacidade de comprometer a retina ainda não havia sido formalmente documentada e publicada.
Esse relato de caso foi o primeiro a descrever, com confirmação laboratorial, que o vírus da febre amarela pode causar alterações na mácula com perda de visão.
A boa notícia: o paciente recuperou visão completa (20/20) em oito semanas, sem necessidade de tratamento específico.
O que isso significa para a prática clínica?
A febre amarela deve ser considerada no diagnóstico diferencial de pacientes que apresentam perda súbita de visão após um quadro de febre viral em áreas endêmicas. O rastreamento oftalmológico precoce nesses casos pode fazer diferença no acompanhamento e orientação adequada do paciente.
Publicar esse caso foi uma oportunidade de contribuir com a literatura científica em um momento epidemiologicamente relevante para o Brasil — e de reforçar a importância da Oftalmologia no cuidado integral de doenças infecciosas.
Publicação:
Dompieri RC, et al. Unilateral acute idiopathic maculopathy secondary to yellow fever disease: a case report. American Journal of Ophthalmology Case Reports. 2019. DOI: 10.1016/j.ajoc.2019.100464
Dr. Rodrigo Crispim Dompieri
Oftalmologista | Retina e Vítreo
Membro Titular da Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo – SBRV
CRM-SP 175341 | RQE 82023